28 Dezembro, 2009

Planos para o ano que se avizinha.



E ontem, a pergunta definitiva; “Gastas demasiada energia a contrariar a existência do Amor. Porque não acreditas no Amor?”
Uma pergunta destas, feita no meio da aguardente velha, que recuso a tomar – outros tempos outras vontades – especialmente quando tem por introdução uma afirmação feita sem aviso, merece uma resposta significativa.
Sem entrar em detalhes, poder-se-á dizer que a energia que gasto a contrariar a existência do Amor, é a mesma que vejo gasta nas ruas da cidade dos afectos por pessoas que perseguem o Amor como a última esperança da sua existência. Digamos que se me engano nesta declaração, também aquela que quero contrariar está ferida. Não de morte, mas fraca. Por outro lado, o acto de acreditar no Amor, não faz nenhum sentido se não acreditarmos primeiro nas pessoas. O Amor, resulta essencialmente de um acto de fé. De crença absoluta. Mais do que confiança, quem ama, ou visa ser amado quer acreditar que nesse sentimento se preenche e completa e que a sua existência depende disso. O Amor que usamos para ficar fortes, não é mais do que a limitação absoluta da nossa força. Deixamos que nos consuma. Somos um refresco ou um cobertor, mas nunca a inquietude. Ir mais além não existe quando queremos prolongar momentos ou palavras, ou toques, ou cheiros, ou circunstâncias. O Amor vive de rotinas e repetições. Amamos a mesma pessoa porque sabemos com que podemos contar. Pensamos confiar quando aquilo que temos é uma fé inabalável que os momentos felizes não se esgotem ao virar da esquina, ou de um decote que fica bem. Temos fé no Amor a quem confiamos demasiadas coisas importantes. Acredito no Amor, mas desconfio das pessoas. Não nego a existência do sentimento em si, mas não o faço depender das circunstâncias. Dou liberdade ao Amor para poder existir fora das pessoas, porque só assim faz sentido, só assim pode ser o sentimento maior da inquietude, da vontade, do desejo. Ficar quieto é a maior contradição do Amor.

E nisto a mesa fico calada durante momentos. Após isso, decidimos todos continuar a fazer planos para o ano novo que se avizinha.

22 Dezembro, 2009

Imperturbável

Seguia, imperturbável, o seu caminho. Trajecto de luz e cor, de sorrisos evidentes e outras tantas inquietudes escondidas na ligeira impaciência da Primavera dos conhecimentos. Nascia de novo. Para trás ficavam anos de descrença e fatalismo, em que os fins não chegavam a deixar os inícios nascer, e quando nasciam, viviam secos à sombra da esperança, do futuro, do que estava para vir. Recordava com desprezo as palavras do velho cínico que disfarçava a amargura em suaves prestações de inteligência; “O Amor não existe. O Amor não é mais do que o medo de sermos irrelevantes. Amamos porque não queremos que a nossa existência não toque quem nos rodeia. É no Amor que confortamos a finitude do que somos. Só amamos porque queremos ser amados. E assim sendo, já não existe Amor verdadeiro. Aquele despojado sentimento que não precisa de correspondência para respirar, que não precisa que nos amem para existir, aquele Amor que existe apesar de tudo, apesar do silêncio do outro, da distância do outro, da ausência do outro. Amamos porque precisamos e não porque acontece. O Amor verdadeiro, morreu algures entre o MIRC e o Fakebook.” Dizia ele em destruidoras ondas da felicidade de quem o acompanhava.
Hoje não!
Hoje sabia que havia esperança, que o amor aconchegava o peito aberto ao frio do inverno, e seguia, imperturbável, o seu caminho.
Chegado ao seu destino, depois de respirar fundo e ver que a vida o tinha acompanhado cheia de vida, e duzentas mil cores diferentes, arrimou a coragem e tocou na campainha. Subiu as escadas de 5 em 5 degraus, por pouco não caía, era o Amor que o segurava, deixava-o com capacidade de voar. O amor transformara-o em super-homem, com a força de dez mil homens de ferro.
- Amo-te. Sempre te Amei e estou tentado a dizer que sempre te vou Amar.
Disse numa só frase antes que esquecesse todas as frases que tinha tentado treinar com esforço.
Ela, naquele seu jeito amável e suave, diz-lhe que gosta muito de saber isso, mas que não o pode corresponder, que apesar de lisonjeada não pode aceitar um Amor que não quer.
Ele, perdido na cidade que até há pouco estava cheio de cor, sente-se vazio, árido. O seu peito é um deserto e a sua pele a tempestade que lhe arde nos olhos e lhe queima a vontade de continuar, imperturbável, o seu caminho. Que faria ele daquele Amor que aconteceu?
Recordou-se então das palavras do velho cínico. Agora pareciam-lhe menos cínicas e muito mais sábias.
Se calhar o Amor resume-se a só isso tudo. A última esperança de não sermos irrelevantes. É pouco para o tanto que desejamos, pensou.
E seguiu, imperturbável, o seu caminho!

15 Dezembro, 2009

Livro (um regresso)


O teu cheiro ainda mora dentro do livro que deixei aberto para mais tarde escrever a nossa história. Amanhã… só amanhã, procurarei entre os outros objectos de que já não me lembro a origem, onde deixei as folhas em branco que deixámos por escrever.
Ao encontrar o livro que mantém o teu perfume vivo, talvez eu perceba que é da nossa história que sinto falta. Daquela que escrevemos à distância de um olhar, e da outra em que tu me deste a mão pelo medo que sempre tive dos sítios onde não precisamos de terra firme para andar em frente. Nesse livro, sem imagens ou letras, ficarão as palavras por dizer, e o teu perfume a embalar o destino de não precisar de escrever para recordar, se tivermos sorte.
E não adianta chegares perto de mim com os olhos carregados de sol a tentar explicar o que é o amor. Não vale a pena. Não preciso.
É em ti que o sei!
Até que a morte nos Junte...

10 Novembro, 2009

Noite...

José Luis Cunha

Como te poderei dizer meu amor?
Que o meu sexo é, em ti, punhal
Que entra incandescente em desejo
e na tua carne desce até onde a alma se esconde
da vida que te roubo
sempre que os teus olhos se abrem contra os meus
e no pedido surdo que a tua boca deixa fugir
me sobram em sussurros as palavras
Que o teu sabor me deixa na boca
todas as noites que me visto na tua pele.
Deixa deslizar.
O amanhã, nasce todos os dias!


30 Outubro, 2009

Crónica Maldita, ou como diría um amigo com queda para o rigor: Mal escrita.

O Alfredo costumava dizer-nos, a nós salteadores dos afectos alheios, que só tinha medo da morte quem nunca tivesse nascido. E logo ele, que nem sequer tinha o escudo da demência para o proteger dos olhares condescendentes que nos sentíamos obrigados a deixar-lhe à porta das palavras. Logo ele. Nunca percebi muito bem como não se pode ter medo da morte. Um dia estamos aqui, e noutro fugimos das pessoas que mais gostamos. É isso que nos amedronta. Morrer sem poder levar todas as comodidades que vamos apinhando enquanto vivemos. As pessoas. Os sentimentos. Os sorrisos de sexta-feira à tarde. Até os enganos de sábado à noite se nos fazem em falta quando vamos. E nisto, não é o medo que sentimos. Se calhar é o apego que temos aquilo que julgamos nosso. Tenho-me recordado muitas vezes das palavras do Alfredo. Agora, que ando para aqui a tentar passar entre os dias sem que as noites me apanhem, tenho o tempo necessário para pensar nessas coisas do fim. Desbasto um pouco o que se diz, compondo com o sal do que se faz, e chego à conclusão que ele tem toda a razão.
Ontem, passei pela porta de uma pastelaria e uma senhora cá fora, coberta por uma grossa camada de sujidade tinha a mão estendida. Olhos vazios, via em quem passava mais uma oportunidade que se lhe fugia entre os dedos cerrados da mão. Para ela, não somos nada, apenas oportunidades perdidas. Porque estendia ela a mão de dedos cerrados, se nada existia para passar por entre eles? O curioso, mesmo para quem está habituado a observar, é que me apercebi da mulher, dez metros depois de passar por ela, e mesmo assim, mesmo tendo percebido que estava lá atrás alguém, segui em frente de passo seguro. Muito depois de passar por ela, aquele ser mirrado de não ter, ainda vinha atrás de mim. Eu, de passo largo e decidido, e ela atrás de mim. Não me largou mais.
Compreendo o Alfredo. Hoje, um dia depois de não ter visto a mulher que se mostrava atrás daquela mão estendida como uma garra que se cola à vida com a pouca força que ainda tem, compreendo as pessoas que afinal não têm medo de morrer. A Morte, não é nada demais. É um acontecimento. As pessoas estão aqui, e depois já não estão. Calha.
Hoje já não tenho medo de morrer, mas aquela mão, estendida no vazio fez-me perceber que tenho muito medo de ir desaparecendo aos bocados. Hoje as pessoas dão por mim. Amanhã apenas as pessoas que eu gosto sabem que eu existo. Na semana seguinte apenas as pessoas que me querem dão pela minha falta. E depois, quando estas acabarem, é o fim. Mais do que nunca hoje morremos assim. Como um pôr do sol com nuvens. Não o podemos evitar mas vamos desaparecendo aos bocadinhos, sem ninguém dar por isso. Nem nós.
Não é o medo de morrer que me leva a pensar no Alfredo que já partiu. É o pavor de como aquela senhora de ontem à porta da pastelaria, eu andar a desaparecer aos bocadinhos. Um dia destes, as pessoas darão por mim dez metros depois de passarem à minha frente, e eu vou atrás delas. Depois… bem depois, chega ao momento em que já não vou, e aí é melhor que eu tenha vivido o suficiente para já não ter medo de morrer, até porque há muito que aos olhos dos outros eu deixei de existir.